PERGUNTAS DIFÍCEIS

Texto © Sarah Adamopoulos
Fotografia © Rosa Reis




Rui Catalão, antigo jornalista, tem-se afirmado como um dos mais originais criadores teatrais portugueses desta nossa época imprecisa – marcada pela incerteza também no domínio do teatro, pois são irresolutas as formas do que ainda não tem contornos sem zonas de sombra, não apenas reconhecíveis por todos como reconhecidos pela 'comunidade teatral' portuguesa. Num tempo em que a palavra teatro não designa já apenas uma única realidade – grandemente imutável e assim permanecida desde há longo tempo –, o que torna Rui Catalão (n. 1971) original, para mim que escrevo estas linhas, não é tão-pouco o facto de este criador de objectos teatrais distintos (diferentes, também, do que pode ser hoje referido, stricto sensu, como teatro documental) ter trabalhado já, por várias vezes, com pessoas que não são brancas, nem integram as classes médias, e que, na sua maior parte, nem sequer vivem em Lisboa ou nas cidades socialmente consideradas mais nobres.



Não. O que faz deste dramaturgista (e nesta palavra – que na data em que alinho estas ideias está ainda erradamente dicionarizada – reside ao menos uma parte do que procuro com tanta dificuldade capturar) alguém tão específico é o facto de, não sem desassombro, ser capaz de criar objectos teatrais que se recusam a fazer de conta. «A ideia comum de teatro é que tudo é um faz de conta», disse-me. Não sendo o seu teatro comum, Rui Catalão constrói espectáculos que não apenas assentam em histórias verdadeiras como estas são contadas – i.e., representadas em cena – na primeira pessoa. Ou seja, em lugar de ir buscar actores para serem intérpretes que representam quem não foram jamais, Catalão trabalha com a vida concreta (com a memória de factos da história privada e com os estilhaços existenciais que gera) de actores não-profissionais que, levados pela sua mão, sobem a cena para se auto-representarem – a partir de textos que constroem em conjunto com o timoneiro dessa coisa teatral.


«O TODOS é um festival atento às comunidades, empenhado em trazer história, em trazer património, em trazer antropologia, em trazer poesia, em trazer os valores de diferentes culturas, e o meu trabalho integra-se muito bem nesse desígnio.» Rui Catalão, encenador e dramaturgista de A Rapariga Mandjako


Apesar de já ter trabalhado várias vezes com actores profissionais e de ter tido experiências de palco objectivamente consideradas profissionais pelos seus pares – mas também este é um vasto debate sem absolutos, pois a verdade é que Catalão, à imagem de alguns outros poucos, tem proporcionado condições profissionais a actores emanados de contextos de criação de feição comunitária –, este criador tem uma outra ideia do que pode ser o teatro, e essa ideia é a sua regra e o seu caminho. É a percorrer esse caminho que encontra os protagonistas dos seus espectáculos – como é o caso de Joãozinho da Costa em A rapariga Mandjako (o terceiro solo teatral que construiu com jovens que conheceu no Vale da Amoreira, no Concelho da Moita), ex-participante num workshop de teatro dirigido por Rui Catalão destinado à comunidade (i.e., à população indiferenciada) daquele lugar da margem sul do Tejo.



Em A rapariga Mandjako, recorrendo a processos de construção narrativa que transpõem para a linguagem cénica os sempiternos instrumentos do jornalismo – não confundir com comunicação ou propaganda (perguntas difíceis, respostas verdadeiras, reflexão, edição – a cerzidura do texto), Catalão partiu das memórias pessoais de Joãozinho da Costa para criar um objecto que é um híbrido entre a antropologia (em sentido lato) e a arte.



Por vezes, os títulos dos espectáculos que cria transportam esse programa não apenas estético como também histórica, política e socialmente implicado – caso de E agora nós! (2016). Aliás, bastante curiosamente, o primeiro espectáculo de Catalão (uma criação de João Fiadeiro – e há nesta sua convivência precoce com a dança contemporânea emanações que podem ser vistas nas suas actuais criações, sempre muito próximas do corpo – do corpo em cena, e de como o corpo transmite o texto) chamou-se O que eu sou não fui sozinho (2000). Ou seja, há em Catalão um apurado sentido da ideia de que o que cada um de nós é não o é sozinho, mas com os outros da comunidade – os outros todos: os da família, os do amor, os do bairro, os do país, os da Humanidade – essa mesma, essa multidão que um só actor em cena pode encarnar. Um sentido que é para além do mais poético, logo intrínseco – muito certo para documentar com arte a memória da vida dos de hoje.

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