ESCOLA MARIA DA LUZ DE DEUS RAMOS

            A Escola é uma entidade orgânica, como uma árvore, por exemplo, cujos frutos ou flores fossem os meninos. Por vezes é preciso ir buscá-los a casa. É o que se faz na Escola Maria da Luz de Deus Ramos, do Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar, nas Galinheiras, num ambiente de confiança e de afeto, onde um singular projeto pedagógico procura todos os dias operar a mudança na comunidade e na vida de crianças cujos sonhos é preciso escutar, integrando-os num currículo subjetivo, ao encontro das suas vontades. 


            Texto de Sarah Adamopoulos

            Fotografias de Beatriz Pequeno

            Fátima Cunha, coordenadora da Escola Maria da Luz de Deus Ramos, é a professora do 1.º Ciclo a que todos os meninos deveriam ter direito. Independentemente de tudo – muito embora uma professora assim possa ser ainda mais valiosa se os seus alunos provêm de famílias socio-economicamente carentes. Um aditamento à Lei de Bases da Educação poderia inscrever essa prerrogativa no capítulo dos princípios fundamentais. Determinaria por exemplo assim: «Todos os meninos têm direito a ter uma professora apaixonada pela pedagogia enquanto ciência da relação humana». 

            Mas afinal o que tem de especial esta professora? E o que tem de tão particular a sua escola sem número de porta, situada na rigorosa linha de fronteira onde acaba Lisboa, espécie de território raiano municipal, terra de passagem, onde nem há tanto tempo assim tudo o que havia eram quintas agrícolas e onde a estrada que liga o Forte da Ameixoeira ao Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro da GNR não podia ser usada por toda a gente? 

            Uma escola que é parte da memória da cidade  

            “A Escola é fundadora no território do bairro das Galinheiras. Começou a funcionar no tempo de Marcello Caetano. Nós sabemos isto porque a Dona Conceição, que veio a ser uma auxiliar da Escola [na altura designada por contínua], escreveu a Marcello Caetano a pedir ajuda depois de umas grandes cheias que houve [em Novembro de 1967].” E nessa carta o Presidente do Conselho anunciava à Dona Conceição que não se preocupasse com o seu futuro sustento pois ia abrir uma escola nova e que ela poderia lá trabalhar. 

            Mas isso que já lá vai ficou entretanto quase esquecido e foi sobreposto com novas histórias: as de quem já mais recentemente, a partir dos anos de 1990, foi realojado no território no âmbito dos PER (Programa Especial de Realojamento), criando uma sobreposição de tecido urbano que se juntou às comunidades das Vilas – onde moravam as famílias de operários vindos da província que trabalhavam nas obras públicas e complexos fabris – e à população provinda das antigas colónias portuguesas em África, ali fixadas depois do 25 de Abril.

            Muita gente. Muitos problemas. Mas também muita multiculturalidade, entretanto tornada interculturalidade, construindo uma realidade cultural compósita – isto é, heterogénea, plural. Uma realidade cultural plena da riqueza da diversidade mas, como quase sempre nestes casos, socialmente equiparada. “Neste momento temos dez turmas, sete do Primeiro Ciclo e três do Pré-Escolar, e quase todos os meninos pertencem aos escalões A [rendimentos anuais até 3.071,67€] e B [rendimentos anuais até 6.143,34€].” Muitos problemas – os materiais e os seus derivados consequentes. Por isso, seria mesmo muito importante que a Escola Pública pudesse ser um interlocutor-actor, isto é, que tivesse uma verdadeira capacidade de agir, colaborando para uma recomposição social mais justa e democrática. É o que Fátima Cunha procura fazer na Escola Maria da Luz de Deus Ramos.

            “A Escola viu muita coisa a acontecer em seu redor, e acabou por ser um lugar e um símbolo de referência no território. Por aqui passaram várias gerações de meninos.” Alguns autóctones mas muitos mais de passagem, porque foram ali realojadas as suas famílias, tendo entretanto muitas destas seguido para outros lugares – como sucede amiúde nos contextos de pobreza, desde logo  marcados pela mobilidade que precede ou sucede à precariedade da habitação. 

            “A Escola viu muita coisa a acontecer”, diz a Professora Fátima Cunha, designando a Escola como uma entidade com olhos de ver. É porque lá dentro havia gente que tinha olhos e que viu e que não esqueceu. E por isso, a Escola é depositária de uma História social que merece ser conhecida – documentada e inscrita na memória da cidade. O TODOS tem vindo a dar uma ajuda desde a sua edição de 2021, numa colaboração que prossegue este ano.

            Pedagogia, cidadania e ética

            Uma Escola diferente, dissemos já. Mas diferente como? Diferente pedagogicamente mas sobretudo diferente na sua relação com a comunidade – muito embora as palavras pedagogiarelação sejam quase sinónimas. “Para nós é um grande desafio, um exercício de cidadania e um compromisso ético. Somos portadores de um conjunto de saberes que não pode estar dissociado da ideia de Serviço Público. Porque há coisas que precisam de ser minimamente asseguradas. Mas o que talvez torne a Escola diferente seja o facto de construirmos aqui um saber que é essencialmente experienciado, empírico, no contexto do qual temos por vezes a oportunidade de testar abordagens que só posteriormente são validadas.” 

            Uma escola que é, assim, um lugar de inovação – uma espécie de start-up que recomeça todos os dias – assim os professores tenham esse talento para o recomeço. “Os professores têm autonomia. Nós temos, no enquadramento teórico da Escola Pública, todas as possibilidades de fazer o que julgamos ser conveniente e ajustado.” Por exemplo: os pais precisariam de ser ajudados a ser mais pró-ativos. “Isso é um trabalho hercúleo, porque por vezes os pais estão muito fragilizados. Mas consegue-se.” Um trabalho que não tem, assim, eminentemente a ver com aspetos materiais, antes com a construção de uma capacidade para a relação humana. E isso, não há recurso burocrático que resolva. “Quando corre bem, é muito forte. Dá-se e recebe-se. Por isso seria tão interessante que se mantivesse uma equipa que permanecesse na escola mais do que um ciclo. Para podermos ter tempo para construir trabalhando no longo termo. O que tem acontecido é que por vezes temos compassos de espera. Temos, também, de contemporizar. Mas há esperança, sempre. O novo ministro da Educação [João Costa] é uma pessoa que está ligada aos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Ele sabe que há perfis de professores que não se ajustam aos territórios onde são colocados. Porque este é um trabalho que requer algumas capacidades específicas. Não é preciso saber tudo, mas é preciso ter curiosidade, espírito de descoberta, gostar de investigar (porque são professores de investigação-ação) e estar disponível para pensar a Escola.”

            Sendo as crianças o objeto central e finalidade da escola, seria preciso que estas pudessem afirmar e/ou construir a sua identidade própria no seio da escola. Aprenderem a ser quem são. Mas também apreenderem conceitos tão básicos como perceberem que não basta ir um dia à Escola para aprenderem a ler e a escrever. Que a aprendizagem é um processo longo, que requer tempo, e vontade. E no entanto, essas crianças que por vezes chegam à Escola sem qualquer literacia intelectual “são poderosas em muitas outras coisas. A crueza, as angústias, as dores, toda essa vulnerabilidade que trazem de casa pode ser transformada numa capacidade posta ao serviço dos projetos de vida que estes meninos possam vir a construir. A nossa arte é ligar as suas motivações pessoais às aprendizagens da escrita, ou dos processos de investigação e de experimentação.” E ser capaz de perceber que, por vezes, aqueles que se portam mal é porque têm fome ou porque têm sono. 

            Um dia, passou pela Escola um menino que gostava de apanhar as trotinetas que são abandonadas por Lisboa. Essa vontade foi objeto de um trabalho de projeto, deslocando-se a Escola até à sua oficina de experiências, sita num esconderijo, onde várias trotinetas eram submetidas à remoção dos seus GPSs e posterior reparação elétrica, para poderem enfim ser usadas pelos meninos do bairro. E perguntará o leitor destas linhas: e a questão legal? Essa será com outras instâncias, com as quais, se nesse sentido solicitada, a Escola deve colaborar, justamente lançando mão do que é capaz de fazer: relacionar-se e compreender, pondo-se ao serviço das necessidades e dificuldades das crianças. Ensinando-as a escrever a palavra roda, por exemplo. Ou valorizando saberes como a sua intuição, ou a sua capacidade para o compromisso com o outro, desenvolvidos por quem está habituado a viver no limite. No limite de Lisboa, no limite da casa, no limite da comida, do dinheiro, etc.

            TODOS na Escola

            Na sua edição de 2021, o TODOS perguntou: A Escola é onde?, e organizou conjuntamente com a Escola Maria da Luz de Deus Ramos um conjunto de iniciativas subordinadas aos temas da coesão social, da democracia e da cidadania, da sustentabilidade e do diálogo intercultural. Este ano o TODOS regressa à Escola à qual durante a pandemia o Ministério da Saúde pediu ajuda para entrar nas Vilas, onde moram tantos dos seus meninos e onde o COVID se havia disseminado com mediático aparato. À imagem de outras alturas e situações de emergência social, em que a Escola foi mediadora entre os poderes e a população. Este ano, o TODOS prossegue a sua colaboração com a  Escola. O encenador Miguel Jesus está desde Março a trabalhar no projeto que dará origem ao espetáculo As Mãos das Águias.


            Quando não era ainda nenhuma vez

            As Mãos das Águias é um espetáculo de teatro dirigido às crianças e ao público familiar, onde três contadores vêm partilhar três histórias que aconteceram quando não era ainda nenhuma vez, quando as mães ainda não tinham nascido e se começaram a fazer perguntas, e quando o bater das asas das águias era o único ponteiro do tempo.

            Na Escola Básica Maria da Luz Deus Ramos, o grupo de trabalho do espetáculo anda a preparar trabalhos com as crianças no sentido de partilhar algumas perguntas, de recolher algumas histórias, de construir adereços e comentários que levem à construção de um espetáculo que possa integrar as suas ideias e opiniões, num processo de reflexão e questionamento conjunto. Assim, através dos vários exercícios propostos, numa primeira fase pretende-se trabalhar sobretudo sobre a dramaturgia e sobre a construção plástica do espetáculo: promovendo e provocando exercícios de escrita e de recolha de histórias que deverão integrar e enriquecer o texto do espetáculo, cruzando as palavras dos contos de forma inusitada e surpreendente, tornando as palavras literárias mais próximas da oralidade e levando também a discussão sobre os temas abordados até ao contexto familiar dos alunos e dos seus amigos e vizinhos; partilhando com os alunos algumas técnicas de expressão plástica, convidando-os a criar desenhos e bonecos de barro que servirão de adereços aos atores, com essa qualidade infantil e primordial impossível de igualar.

            Tanto na dramaturgia como na conceção plástica, este processo de construção em espaço escolar é assim preponderante na procura de um espetáculo que se quer artisticamente acutilante e que deve fazer jus às inquietações dos alunos de hoje. Ao mesmo tempo, ao transformarem-se em dramaturgistas, aderecistas e encenadores, os alunos-colaboradores, a grande parte deles filhos de pais originários de países africanos ou de etnia cigana, ganham noção de diferentes campos de atividade na arte teatral, os quais muitas vezes ignoram e os quais, a sociedade em geral, a maior parte das vezes, subestima. Assim, num processo que culminará com a apresentação do espetáculo aos alunos, estes momentos de partilha e de imersão artística, de aprendizagem mútua entre alunos, colaboradores e artistas, constituem-se enquanto exercícios sadios dessa capacidade que cada um de nós tem, independentemente da sua língua, da sua origem e da sua cor de pele, de poder contribuir, sempre e a cada instante, para a construção de um mundo onde o encontro e a empatia se sobreponham à divisão e à hostilidade. Miguel Jesus

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