QUINTA ALEGRE: UM PALÁCIO PARA TODOS

Todos os lugares com significado num território devem ser acessíveis à população, muito particularmente aqueles que transportam uma parte da História desses lugares. É o caso do Palácio da Quinta Alegre, que é desde 2021 objeto de experimentação de uma gestão participativa que os tempos têm demonstrado ser não apenas necessária como virtuosa. Assim, na Quinta Alegre o trabalho de programação cultural é agora feito em estreito diálogo com a população, numa lógica de mobilidade: mobilidade no seio da própria comunidade, que faz com que a população visite o Palácio, ali se junte e circule, favorecendo também uma mobilidade intergeracional e intercultural, através de uma programação que cruza pessoas de várias idades e origens. Bem-vindos à Quinta Alegre, um palácio de todos e para todos.

            Texto de Sarah Adamopoulos

            Fotografia de Beatriz Pequeno

 

            Mandada edificar durante a 1.ª metade do século XVIII por Manuel Telles da Silva, filho do Conde de Villar Maior e 1.º Marquês do Alegrete (título com que foi agraciado em 1687 por D. Pedro II), a também conhecida por Quinta dos Viscondes de Coruche foi primeiramente uma casa agrícola e mais tarde morada de recreio daquele notável dos tempos do Portugal Restaurado – aristocrata de instrução humanista, conhecedor da cultura erudita e cosmopolita de transição para o século XVIII, mecenas das artes cuja memória transportou até aos nossos dias um evidente gosto pela arquitetura. O Palácio e o Jardim da Quinta Alegre são ainda hoje eloquentes testemunhos materiais desse gosto – tendo sido preservadas muitas e diferentes pré-existências que ali se sobrepõem (de que são exemplos azulejarias de outros tantos períodos), no quadro de uma premiada intervenção de restauro realizada em 2015-2016.

            Dotada de uma escala e efeito cenográfico de certa excecionalidade no contexto do território em que está implantada, a Quinta Alegre brilha majestosa em Santa Clara. Classificada como imóvel de Interesse Público em 1962, foi adquirida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) em 1983, por compra a Ana Maria Telles da Silva. Após reabilitação, a SCML veio ali a instalar primeiramente o Museu dos Jogos da SCML, e mais tarde uma unidade social de residência assistida, inaugurada em 2017.

            Reconhecida pelo anterior executivo camarário de Lisboa como um lugar de cultura, veio a  integrar o programa estratégico da cultura para a cidade criado e implementado entre 2017 e 2021 para um conjunto de freguesias lisboetas onde a inexistência ou escassez de equipamentos culturais inibiam ou tornavam escassas a produção e a fruição culturais. A designação pretendeu servir uma nova proximidade entre as populações e esses lugares – desse modo requalificados tendo em mente torná-los acessíveis às comunidades através da promoção de uma relação assente na cultura e nas artes. “Não havia neste território equipamentos culturais que pudessem servir essa relação de proximidade com a comunidade”, explicou Susana Duarte, a atual programadora cultural da Quinta Alegre.

            “A Câmara Municipal de Lisboa estava à procura de um equipamento em Santa Clara quando a Santa Casa fez saber que tinha o Palácio e que este poderia adequar-se a um projeto cultural. E é nesse momento que se estabelece uma parceria entre as duas instituições. Deu-se o caso de ser um equipamento nobre – mas poderia ter sido um outro tipo de equipamento, como por exemplo uma coletividade da freguesia.” Por essa altura, já o Palácio da Quinta Alegre era objeto de um programa de visitas guiadas dinamizadas pela SCML. Iniciado em Julho de 2021, o projeto assentou num conjunto de pressupostos passíveis de dar forma a uma programação cultural regular. Tendo isso em vista, um diagnóstico sociológico do território foi levado a cabo.

            “Em Outubro de 2021, no âmbito do programa Access – Culture for all realizou-se um pequeno questionário à população, com perguntas fechadas e abertas, para saber se conhecia a Quinta Alegre e, conhecendo ou não, o que imaginaria que poderia ali acontecer, apelando também a que fossem feitas propostas. Para a concretização do referido questionário, identificámos no território e convocámos um conjunto de estruturas locais, desde escolas a centros de desenvolvimento comunitário, comerciantes, representantes da comunidade, etc., e fizémos uma reunião pública com todas essas estruturas e pessoas – e, em conjunto com os presentes, decidimos onde seriam distribuídos os questionários, que dirigimos não apenas a quem mora em Santa Clara mas também a quem aqui trabalha ou a quem por aqui passa regularmente. Os questionários estiveram disponíveis durante duas semanas, espalhados por cerca de 50 locais da freguesia – mercearias, escolas, centros de saúde, centros de desenvolvimento comunitário, espaços da SCML, associações culturais.”

            “As pessoas participaram em número considerável [cerca de 2 500], sendo que a resposta mais relevante foi a de que o espaço da Quinta Alegre deveria oferecer com regularidade workshops e atividades em que as pessoas pudessem experimentar algo. Mostraram também interesse na possibilidade de apresentarmos espetáculos. Ou ainda que o Palácio pudesse ter à disposição um estúdio de música, ou um estúdio de fotografia, isto é, que pudesse estar apetrechado para atividades específicas que interessam uma parte da população. Sim, queriam, no fundo, ocupar o espaço. Nesse sentido, temos naturalmente envolvido as pessoas na nossa programação, pensando que mais tarde a própria comunidade possa ter um envolvimento ainda mais ativo na programação da Quinta Alegre.”

            Paralelamente ao questionário, Susana Duarte foi escrevendo um texto-programa que lhe havia sido pedido, e foi juntando a informação obtida por contato direto com o conhecimento empírico e/ou teórico que a atual coordenadora e programadora cultural da Quinta Alegre alinhou alguns critérios principais, entre os quais se releva o da promoção de uma ideia de mobilidade – ou seja, de acesso tornado acessível. “A mobilidade no sentido da supressão de barreiras, a mobilidade no seio da própria comunidade, que está muito fechada nalgumas zonas do território. A mobilidade que faz com que a população venha, se junte e circule num espaço que faz parte do território que habita.” Mas também a mobilidade intergeracional e intercultural, “criando uma programação que cruze pessoas de várias idades e origens.”

 

            Sementes do TODOS

            “A primeira atividade que a Quinta Alegre acolheu foi o Festival TODOS, que tinha justamente acabado de chegar a Santa Clara. A semente deixada pelo TODOS gerou frutos e essa lógica de aproximação e de conquista da comunidade tem-nos ajudado  a desenhar e a implementar uma programação de abertura da Quinta Alegre às pessoas. Em novembro de 2021 tivemos uma oficina de dança para jovens com o coreógrafo Gustavo Ciríaco, que divulgámos durante o TODOS do ano passado. Correu de tal forma bem que entre maio e setembro vai haver uma reedição dessa oficina, tendo também em mente a possibilidade de esses jovens poderem apresentar-se no TODOS deste ano.”

            “Em janeiro e fevereiro recebemos no Palácio um espetáculo comunitário que estreou no TODOS do ano passado: o espetáculo Bate-Estradas, de Joana Brito Silva, criado com a colaboração do Centro de Desenvolvimento Comunitário da Charneca. Um espetáculo muito belo, sim, criado com grande mestria envolvendo as diferentes pessoas da comunidade, pessoas mais velhas, músicos, jovens, e sim, muito rico do ponto de vista documental também. E foi assim que abrimos o Palácio a quem habitualmente não o ocuparia, ou não o faria dessa forma”: as antigas madrinhas de guerra, tão numerosas em Santa Clara, por exemplo. Mas também os seus familiares, filhos, netos, vizinhos e amigos. Pasmados perante a exuberância da escala e da estética barroca do Palácio, alguns anunciaram que aquilo era demasiado para eles, que não era para eles, que era intocável, talvez até mesmo sagrado, seguramente não lhes sendo destinado. Eis uma razão mais para dessacralizar a Quinta Alegre, transformando-a num lugar aberto a todos – democrático, inclusivo e participado.

 

            Susana Duarte  (n. 1974) é programadora cultural e coordenadora de projeto de proximidade. Atualmente coordena o projeto da Câmara Municipal de Lisboa – Quinta Alegre | Lugar de Cultura, na freguesia de Santa Clara, integrado no programa de Lugares de Cultura criado pela Direção Municipal de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, onde desenvolve um programa de proximidade. Entre 2014 e final de 2020 criou, implementou e desenvolveu o projeto São Luiz Mais Novos, no Teatro São Luiz. Foi responsável pela programação na área das artes performativas para crianças e jovens, famílias e escolas, onde se empenhou ativamente no trabalho de envolvimento de públicos, nomeadamente com a comunidade educativa e o equipamento cultural, não só através da programação, assim como de projetos de continuidade com várias escolas e diferentes graus de ensino. Desde então tornou-se uma adepta convicta da importância do trabalho entre as artes, a educação e comunidade. Entre 2003 e 2014 foi Adjunta da Direção de Produção no São Luiz Teatro Municipal. Entre 1997 e 2003 passou por diversas autarquias, onde teve oportunidade de desenvolver vários projetos culturais com diversas comunidades, associações, estruturas e artistas, sempre ligada às áreas da Cultura, Educação e Juventude.

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