TODOS: A ARTE DE CAMINHAR JUNTOS

No contexto de uma cidade com uma composição social multicultural, o TODOS começou por ser um gesto pioneiro e, ao cabo de doze anos, transformou-se num must do ponto de vista da mediação cultural. A partir de um conceito de grande originalidade, o TODOS tornou Lisboa um frequente case study de académicos e outros investigadores, sobretudo nas áreas das políticas culturais e sociais.


A Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, pensa que “a aposta inicial do TODOS se mantém, e o tempo em que vivemos reforça essa necessidade, pela emergência, no Mundo inteiro, de movimentos racistas e xenófobos, e portanto esse objectivo da inclusão, da ligação entre as comunidades, da criação de comunidades coesas, numa lógica de proximidade, mantém-se. Mas o TODOS não tem apenas uma dimensão social muito significativa, porque é simultaneamente um projecto de uma enorme qualidade artística.”


Entrevista de Sarah Adamopoulos 
Fotografia de Rosa Reis



Com o advento da pandemia, subita e inesperadamente as populações móveis de Lisboa (turistas, estudantes, trabalhadores e empresários estrangeiros) foram consideravelmente reduzidas, e a população residente reganhou uma visibilidade. Como vê o Festival TODOS 2020 neste novo contexto?

O TODOS sempre foi pensado para os residentes. Nunca foi um festival para os turistas ou para os estudantes Erasmus. Na verdade sempre teve esse objectivo de olhar para a diversidade das comunidades da cidade, e de tentar trazê-las para o quotidiano de Lisboa, e, sobretudo, creio, o objectivo de dar visibilidade a essa diversidade junto dos lisboetas, criando ao mesmo tempo mecanismos de inclusão para todas essas pessoas que, muitas vezes, estão fora dos circuitos das artes e da cultura. Foi essa a aposta inicial do TODOS e é essa a aposta que se mantém, e o tempo em que vivemos reforça essa necessidade, pela emergência, no Mundo inteiro, de movimentos racistas e xenófobos, numa altura em que assistimos a uma fragmentação grande das próprias comunidades, e portanto esse objectivo da inclusão, da ligação entre as comunidades, da criação de comunidades coesas, numa lógica de proximidade, mantém-se.


A crise levantou, talvez como nunca anteriormente, a questão do papel que a cultura pode ter.

Sem dúvida. Mas o TODOS já o tinha feito, e foi pioneiro ao fazê-lo no modo como chegou às pessoas – e refiro-me não apenas às comunidades imigrantes mas também às pessoas que estão mais sós, às pessoas que estão nas suas casas isoladas. Esse trabalho de proximidade humana, pela criação de laços de empatia, é cada vez mais importante e assume uma relevância maior no contexto actual. É desde logo importante salientar relativamente a esta edição o facto de ela poder ser realizada, e o esforço que estamos a fazer para que ela possa decorrer em segurança. Até porque uma das nossas preocupações também é a de que a actividade cultural retome, com diferenças relativamente ao tempo pré-pandemia, necessariamente.


Como vê a continuidade de um festival desta natureza: um festival em trânsito pelo território da cidade, pensando que há ainda muitos lugares de Lisboa (ou da sua área metropolitana) que estão por desbravar, isto é, por conhecer, e dar a ver, através dos projectos de intervenção comunitária do TODOS, por exemplo?

O TODOS é um projecto de território, próximo das pessoas, e que muitas vezes revela espaços desconhecidos dos lisboetas – esse desvendar de uma Lisboa (espaços, territórios, e as comunidades, ou seja, as pessoas que fazem a cidade) é um traço identitário muito forte do TODOS, também na sua dimensão política, no sentido de dar voz a todos os que habitam a cidade. O TODOS tem um público muito fidelizado entre os residentes. O TODOS é um projecto multidimensional, e portanto muito rico sob vários pontos de vista. Há uma dimensão do TODOS que veio para ficar, sobre isso não tenho a menor dúvida. Refiro-me ao trabalho com os bairros, sobretudo. Mas o TODOS não tem apenas uma dimensão social muito significativa, porque é simultaneamente um projecto de uma enorme qualidade artística. O TODOS tem 12 anos. Nesse sentido, temos de reconhecer que o TODOS já ganhou um saber-fazer, que já tem um modus operandi testado e tipificado, e penso que esta edição em tempo de pandemia nos vai trazer bastante material de reflexão. Ao nível da Lisboa Metropolitana, sabemos que a região de Lisboa é o futuro, é para aí que caminhamos. O Mundo global está cada vez mais a organizar-se à escala das cidades e das suas regiões. E essa é uma realidade que tem contornos políticos, económicos e também culturais. Estamos presentemente envolvidos de forma muito activa em redes internacionais de cidades e todas as grandes cidades do Mundo estão a fazer uma aposta enorme no trabalho com a cultura como factor de inclusão social e de coesão, e Lisboa é um bom exemplo a nível global de como essas dinâmicas podem ser realizadas.


A cidade é feita não apenas pelos que nela residem. No ano passado, por exemplo, o fotógrafo João Tuna retratou pessoas que vêm trabalhar a Lisboa mas que moram noutros lugares: as que transitam entre as zonas limítrofes ou os subúrbios, e a cidade. Essas pessoas também fazem parte da cidade. Nesse sentido, um espraiamento de um projecto desta natureza para além das fronteiras administrativas da capital faria ou não sentido?

Sim, é um caminho possível, mas que elevaria o projecto a uma outra escala. Por outro lado, ainda há muito trabalho para fazer. Por exemplo, São Vicente, que pelo terceiro ano é habitado pelo TODOS, revelou a densidade do território, quer em termos de escala da população quer da sua diversidade. Penso que micro-escala do actual formato do TODOS [um território por triénio] explica uma parte do seu sucesso, porque consegue esse trabalho de proximidade com qualidade e profundidade.


O TODOS tem também uma forte vertente de cidadania, relacionada com o trabalho com a memória intergeracional, os patrimónios locais (entre os quais a dinamização dos comércios locais), no fundo, uma vertente de fomento, ou de “discriminação positiva” relativamente à experiência da localidade. Mas também de combate a todo o tipo de fenómenos de exclusão.

Essa é uma dimensão fundamental do TODOS, a de desvendar, e dar a ver as pessoas e os territórios onde elas vivem, criando relações empáticas, de proximidade, que chamam a atenção para realidades que o público que vai ver espectáculos nem sempre conhece. E ao fazê-lo favorece a auto-estima no seio das próprias comunidades. Essa abordagem dá um estatuto e uma relevância ao próprio indivíduo, ou seja, a cada pessoa individualmente tomada, e isso é muito importante como factor de inclusão e de promoção de uma igualdade em que todos têm acesso, e todos têm direito. O TODOS é um festival que colabora de forma determinante para criar um ambiente de inclusividade, e de capacidade de acolher a diferença sem preconceito.


Esse é um factor muito importante no plano da auto-representação de uma população.

Esse é um traço identitário do TODOS. Um dos aspectos que acho mais interessantes é o trabalho com as culinárias, por exemplo. A gastronomia é um elemento cultural da maior importância e um modo de dar a ver as várias culturas que habitam Lisboa, e com isso promover direitos e a igualdade de acesso – para além da ideia de partilha, que é também uma marca do TODOS. Essa ideia de como descobrir e respeitar o outro, quebrando estereótipos, é algo que esta programação de proximidade – e até de alguma intimidade – proporciona.


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«Portugal, em particular Lisboa, é um laboratório cultural imenso, onde a integração e colaboração das culturas se expressa de forma notável, o que se traduz na criação artística, na música, na literatura, na pintura, nas artes plásticas, no teatro. Isto cria uma simbiose extraordinária que abre portas do mundo global.» António Costa Silva, Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de
Portugal 2020-2030 
(Julho de 2020)


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