“UMA ESCOLA NA COMUNIDADE”

A Escola Gil Vicente, cuja população escolar do agrupamento integra cerca de 1200 alunos (entre os quais cerca de 30% de alunos estrangeiros), celebrou com o TODOS uma parceria que tem sido frutuosa a transformar a vida dos seus alunos. Uma parceria que constituiu algo de novo, de verdadeiramente diferente de tudo o que tinha sido tentado até então, apesar de a Escola ter não apenas uma tradição de diálogo com a comunidade como um programa extra-curricular que é reconhecido pela diversidade e relevância (pedagógica e  social) da sua oferta. Uma escola muito empenhada na sua vertente de serviço público enquanto pólo educativo para a população do seu território de implantação genericamente considerado.

Fomos falar com a directora da Escola, Ana Duarte.


Entrevista de Sarah Adamopoulos

Fotografia de Rosa Reis



Como avalia esta colaboração do TODOS com a Escola Gil Vicente?

É uma colaboração que remonta a três anos atrás, quando o TODOS nos chegou com a proposta de envolver a Escola no TODOS. Nós acolhemos imediatamente essa ideia porque a nossa escola, o nosso agrupamento, todo ele, tem uma diversidade de culturas e de nacionalidades. Falamos de mais de trinta nacionalidades diferentes. No primeiro ano tínhamos a turma de teatro, do curso profissional, e os alunos puderam estar envolvidos em projectos do TODOS, e puderam actuar no TODOS. No segundo ano desta colaboração, ou seja, no ano passado, a participação dos nossos alunos foi também muito interessante, sobretudo por via do que aconteceu com os nossos miúdos nepaleses – o grupo que fez a peça Aqui, que foi um sucesso incrível. Eles sentiram-se muito reconhecidos, nós reparámos que a seguir a essa actuação eles “cresceram” dentro da escola. Temos uma comunidade nepalesa muito grande, é talvez a maior comunidade estrangeira na escola, mas até então não tinham tido essa visibilidade. Os meninos nepaleses são tímidos, são um pouco “escondidos”, há culturas e/ou nacionalidades que exteriorizam muito mais. Os nepaleses são meninos muito sossegados.


É uma cultura muito distante da nossa.

Sim, é, e a verdade é que eles são miúdos que não se evidenciam, que são muito calmos, e esse espectáculo trouxe-lhes visibilidade, e eles sentiram um orgulho imenso em ter participado nessa peça. Todos os colegas e professores os reconheceram por isso, e eles ficaram muito contentes.


Teve ou não o sentimento de que esse espectáculo mudou as vidas desses meninos?

Aqui na Escola mudou. Eles foram notados, foram vistos pelos colegas e não apenas eles próprios se sentiram orgulhosos de ter participado como também os colegas sentiram orgulho neles. 


E isso era visível.

Era, sim. Muito visível. No primeiro ano, a turma de teatro do profissional fez também uma performance para o TODOS. Depois, tivemos também a participação dos alunos do 1.º ciclo numas conversas que o TODOS organizou sobre racismo e multiculturalidade. E esses meninos foram fotografados, também. Temos uma exposição fantástica em Santa Clara, com as fotografias que o TODOS ofereceu. Aliás, o rosto do cartaz do TODOS deste ano é uma nossa aluna, que já tinha sido fotografada em 2018.


De que maneiras concretas a Escola Gil Vicente se diferencia das outras escolas em matéria de inclusividade?

Diferencia-se de muitos e diferentes modos. Eu e o subdirector chegámos à Escola há três anos. Chegámos com o TODOS, podemos dizer. E de facto o nosso lema é o de prestar um serviço às pessoas que habitam a Escola e o território da Escola. Os alunos, mas também os pais – no fundo, a comunidade. Tivemos sempre uma grande preocupação não apenas com as aprendizagens – não as notas, nem os rankings, mas as aprendizagens, porque isso é muito importante para o futuro dos nossos alunos – mas também com a vertente social, e com a vertente pedagógica no plano da cidadania. Temos muitos projectos sobre a igualdade de género, por exemplo, porque notámos que era necessário, até por causa da multiculturalidade da população da Escola. Temos tido projectos muito ligados à cidadania e às questões da igualdade. No ano passado tivemos um evento a favor da erradicação da violência sobre as mulheres, por exemplo. Tentamos, assim, que esses direitos e que esses deveres de igualdade sejam reconhecidos. Por outro lado, nenhum aluno com necessidades educativas especiais que nos pede vaga é excluído. Temos uma comunidade muito grande de alunos com necessidades educativas especiais muito significativas. 


Há ou não uma prevalência de meninos oriundos de famílias com escassos recursos entre esses alunos com necessidades educativas especiais?

Sim, há nesse grupo uma prevalência de alunos com menores possibilidades económicas. Mas nós temos alunos autistas, alunos com multi-deficiências várias, temos realidades muito diferentes.


Estão quantificadas?

Sim. Em percentagem diria que temos algo como 9% ou 10% de alunos com necessidades educativas especiais. Sim, é muito, mas nós temos uma equipa de educação especial fantástica. E as pessoas procuram a Escola, porque ouviram dizer que aqui se faz um trabalho interessante a esse nível. Quando esta direcção assumiu funções ainda havia um bocadinho o peso da herança do liceu, e esses alunos não estavam bem acompanhados. Criámos um espaço para eles. Fizemos uma cozinha pedagógica que está agora a ser montada. Temos dois centros de apoio à aprendizagem, onde ao alunos com necessidades educativas especiais têm imensas actividades para além das lectivas. No ano passado candidatámos um projecto ao Fazer Acontecer, da Câmara Municipal de Lisboa, que nos dá a possibilidade de financiar outras actividades, como ioga, oficinas, etc.


Esses são bons exemplos de um apurado sentido da relevância das aprendizagens extra-curriculares, da transmissão das coisas práticas que a tradição da Escola tem, e de ligação directa e prática com a comunidade. 

O currículo mistura-se com estas coisas. Temos feito também parcerias interessantes, por exemplo com a Associação Renovar a Mouraria e, através desta última, com a Fundação Lisboa, que passou a vir à Escola fazer sessões de conversação com os alunos estrangeiros, para os ajudar a melhorar o português. Tivemos também um grupo de homens que se reuniram na Escola para falar sobre as fragilidades no masculino (e que normalmente são muito escondidas), os Men Talks. Temos uma outra parceria com o Royal Cine, que ofereceu aos nossos alunos a possibilidade de fazer cinema – temos uma realizadora a tempo inteiro que está a trabalhar na Escola. Vamos aliás apresentar na escola o filme que os nossos alunos fizeram no ano passado. E portanto a Escola tem uma grande ligação à comunidade. Eu não consigo conceber uma escola fechada, porque uma escola fechada é uma escola pobre, e ficam pobres os alunos. Mas nós só conseguimos oferecer todas estas experiências se a comunidade nos ajudar. Só com os nossos professores não seríamos capazes de fazer tudo isto. E portanto temos sempe muita gente de fora (isto é, não professores) dentro da escola. E por vezes perguntamo-nos se não estaremos a exagerar na oferta extra-curricular, mas depois verificamos que os alunos que frequentam essas actividades são os alunos que apresentam melhores resultados.


É muito bom que a Escola possa não ser só o lugar tradicional de aprender certas e determinadas coisas, aprender o Programa.

Penso que já não é possível, esse tipo de escola. Numa escola como a nossa, que é habitada por uma variedade tão grande de tipos de alunos, temos de defender esta ideia de escola na comunidade.


Numa altura em que o racismo é um assunto de enorme centralidade no diálogo democrático, em Portugal e no Mundo todo, num momento em que se percebe que a sociedade está a mudar, e que parcelas significativas das novas gerações não toleram o racismo, de que forma o TODOS contribuiu para mudar essas dinâmicas no interior da Escola? Que impactos objectivos teve?

Nós temos já um trabalho feito sobre racismo – ao longo do tempo na Escola, o que aliás explica que não tenhamos níveis significativos de discriminação racial. Mas o TODOS deu um contributo de uma outra natureza. Os nossos alunos portugueses que foram assistir à peça representada pelos nossos alunos nepaleses mudaram um pouco a forma de ver aqueles colegas. Esses meninos foram vistos sob uma outra luz, com outros olhos. Acho que foi muito importante, isso que aconteceu. Senti uma mudança no comportamento, sim. 

 

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