SIGA A DANÇA!

Texto Sarah Adamopoulos

Fotografia Nicolás Fabian


Um muito premiado filme mudo de Ettore Scola, heterodoxa transposição cinematográfica de um espetáculo de teatro também ele pouco ortodoxo (ambos do início dos anos de 1980), estão na origem deste projeto de dança com a comunidade, estreado em 2012 em Miragaia a convite da Fundação de Serralves. Um espetáculo que finalmente chega a Lisboa, onde ainda não tinha sido dançado – nem nos teatros nem noutros lugares do território da cidade.


Como sucede por vezes com os objetos artísticos, este baile ganhou vida própria. A sua autora, a coreógrafa Aldara Bizarro, nunca imaginou que esta sua peça viesse a ter vida tão longa. Não cessa por isso de surpreendê-la que se transfigure e prossiga tão inesperada dança – como uma entidade com vontade própria que caminha por si só, movida por forças estranhas a quem a criou. Talvez o desejo e o prazer de bailar sejam dois desses motores.


Eis pois um baile que nunca foi dançado, com novas pessoas e histórias de vida, sobre um lugar que é também ele novo porque é único: particular e até então desconhecido da coreógrafa. “No fundo, mais do que uma adaptação, o que vimos fazer ao TODOS deste ano é uma recriação”. Um refazer que não é apenas uma reunião de pessoas que dançam, mas também um registo sobre as suas memórias, para que possa ser criado um subtexto de novas traves-mestras para o espetáculo – desafio programático de O Baile e razão de ser da sua natureza comunitária. “As pessoas juntam-se para dançar mas também para falar sobre o sítio onde moram.”


“Embora tenha nascido na Nova Dança Portuguesa, acabei por ir trabalhar com a comunidade. A ideia de que é precisa a aldeia toda para fazer uma pessoa é para mim verdadeira. Estes caminhos por onde tenho andado não foram programados, aconteceram-me, e eu aceitei-os. Estou sempre a fazer novo e de novo, e sempre a achar que não vou conseguir, e por isso todo o estudo que faço, com as equipas com que trabalho, assenta na ideia de escavar o mais fundo possível para fazer uma peça que seja nova e faça todo o sentido.”


Dançar empodera as pessoas


Se antes de mais é dançar que sempre querem os bailadores encontrados na comunidade, dê-se-lhes música. Foi também nisso que Aldara Bizarro pensou quando convidou o compositor e acordeonista Artur Fernandes para criar uma música original para este baile. Uma composição que vai ser interpretada pelo seu autor (integrado num trio) e por dez elementos da Banda da Charneca. Há em Santa Clara uma ruralidade que persiste, e a música tradicional portuguesa de O Baile é, assim, uma boa base para um cruzamento com outras músicas – e desde logo com aquelas da população afro-descendente que vive no território.


“Até mesmo as pessoas que pensam que não são capazes de dançar, as que dizem que não sabem pôr um pé à frente do outro, ou que dizem que são um pé de chumbo, ou que dizem que têm um pé esquerdo, e outros mantras em relação à dança, de repente dão por si a dançar. Por outro lado, a própria estranheza do corpo é muito bonita. Uma coisa eu sei: que sem darem por isso as pessoas dão consigo a dançar, e que se divertem a fazê-lo. É uma forma de dançar que é feliz. E isso empodera muito as pessoas. A dança põe as pessoas muito bem-dispostas, e predispostas para o que vem a seguir.”


“As artes estão muito cerebrais nestes nossos tempos. O teatro, por exemplo, é muito mente, muito texto, muito conceito, muita conceptualização. Neste nosso baile, as pessoas falam també através do corpo que dança, e há um momento lindíssimo em que improvisam uma dança, e isso só é possível porque durante o processo de criação há uma aproximação ao corpo que é muito diferente do que costuma acontecer no seu dia-a-dia. É um trabalhar o corpo que não se faz no ginásio, a esculpir o corpo, nem a pensar num corpo de aparência jovem, através de sacrifícios que levam a pensar que se está muito perto do corpo, mas isso não é verdade, está-se afastado.”


À escuta da forma do futuro


“Este território tem casas pequeninas, e não apenas prédios, e essa mistura de escalas é para mim interessante. Tal como o facto de haver pessoas que vivem aqui há muito tempo e outras que se mudaram para aqui há pouco tempo.” Aldara Bizarro (n. 1965), invulgar pensadora da arte, e em particular da arte em contexto comunitário (universo onde sempre vai lembrando que cabe a escola), não gosta de modelos. “A ideia de que temos de encaixar modelos para trabalhar seja onde. for é nociva para os próprios projetos. A escola é o grande exemplo disto que digo. Podia haver escolas pequeninas, escolas que fossem num prédio, escolas com vocações específicas... Com os projetos artísticos é a mesma coisa. A diversidade enriquece.”


“No trabalho artístico com a comunidade a componente do público é muito forte, porque antes de a peça existir, o público já está ali connosco, a fazer. É um mundo muito rico, muito trabalhoso, e esse trabalho é muito importante, sim. É também muito subfinanciado, se pensarmos no efeito que tem na vida das pessoas, sobretudo no caso das comunidades mais abandonadas. Para mim, é fundamental que o resultado do trabalho com uma comunidade seja sempre positivo para essa comunidade. Que esse trabalho faça as pessoas sentirem-se realizadas. Mesmo quando apresentam críticas e coisas feias, porque não estamos juntos só para criar beleza. A memória de coisas profundas, o reviver disso, por exemplo, tem de poder contar com um cuidado permanente com as emoções das pessoas.”


“Eu não sei como vão ser as artes no futuro, mas vejo que o público tem cada vez mais coisas a dizer sobre o que quer ver, ou fazer com os artistas. As pessoas querem ir para palco. Querem ter uma voz e ser ouvidas. E isso vai determinar o futuro das artes, sem dúvida. É preciso ver que já há associações de público. Quando comecei a ser bailarina, e depois coreógrafa, nada disto existia. Estou sempre à escuta, talvez porque nunca sei o que é que me vai acontecer como artista, e essa insegurança constante levou -me a praticar a escuta, tentando perceber o que é que vem a seguir – isso, que forma tem o futuro.”

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