TODOS: NUM CANTINHO DA AMEIXOEIRA UMA EMBAIXADA AFRICANA

Texto de Sarah Adamopoulos

Fotografia de Rosa Reis


Quem entra n'O Cantinho da Ameixoeira, verdadeira embaixada de África na Ameixoeira Velha, repara logo nos vários elementos decorativos que não apenas embelezam o lugar como simbolizam identidades, sobretudo uns panos de diferentes cores e padrões em forma de bandeiras desfraldadas que pendem do tecto. Em tão inesperado lugar (como é apanágio da Lisboa multicultural que temos a sorte de ter por capital do País), esses panos representam o continente africano, sob a forma de várias representações não-oficiais: Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Cripto-emblemas a que se juntam as bandeiras oficiais de São Tomé e Príncipe, Portugal e também a bandeira regional da Ilha do Príncipe. A compor a decoração, imagens do Tchiloli (ou Tragédia do Marquês de Mântua), uma tradição teatral da ilha de São Tomé, interpretada somente por homens, que narra com danças e tambores uma história de traição e amor inspirada em lendas de cavalaria europeias medievais. Um par de esculturas senegalesas lembra, ainda, que África é bastante maior que os países lusófonos.


Um pequeno retábulo embutido na parede, que já se encontrava no local, foi mantido por respeito e crença: a de quem acredita que é necessária a mão de Deus para se prosperar num negócio. “Não vamos muito à igreja porque não temos tempo, mas oramos em casa e pedimos protecção. É preciso muita concentração e muita filosofia para tentar gerir isto da melhor maneira”, diz Felizardo Bonfim (n. 1973), são-tomense natural da Ilha do Príncipe, herdeiro do nome de seu pai e caçula da família, cujo nome luminoso até parece abençoado apesar de a sua vida não ter propriamente sido nenhum mar de rosas. Chegado a Portugal em 1998 integrado numa comitiva teatral que veio representar o seu país na Expo'98 (uma versão do Auto de Floripes – teatro de rua sobre lendas europeias quinhentistas tornado tradição em São Tomé), Felizardo acabou por não voltar para casa. “A maior dificuldade por que eu passei foi a fome, porque eu não tinha cá ninguém. Felizmente fiz um amigo da Guiné Bissau que me ajudou. Foi Deus.”


Antigo pintor da construção civil (ofício em que se tornou mestre, ciente de que não iria longe mantendo-se como servente), em 2017 surgiu a oportunidade de Felizardo adquirir o trespasse do restaurante que hoje gere – com a mão decisiva da sua mulher, Dulce, cozinheira especializada em gastronomia africana, embora também confeccione pratos de comida tradicional portuguesa e brasileira. Juntos, tiveram três filhos: Carina, Micael e Rafael. É também para eles que Felizardo e Dulce trabalham de sol a sol. “Fazer uma casa demora o seu tempo e o boca a boca é muito importante. No arranque correu muito bem, mas depois houve um período menos bom. Não desanimámos. E hoje vemos que estávamos certos. Quando eu era pintor nunca tirava férias. Agora já posso tirar.”


“Quem são os nossos clientes? São africanos e são portugueses – sobretudo trabalhadores que estão perto do nosso restaurante, mas também pessoas de mais idade que moram no bairro e vêm tomar café, ou beber um copo, ou comer um cozido à portuguesa. No Verão vêm também os nossos emigrantes que estão fora, por exemplo em Inglaterra, em França, ou na Suiça. Vêm comer as nossas especialidades. Aqui n'O Cantinho há um slogan que diz que a nossa comida é 'uma bomba'. O que significa? Que a comida é muito boa! As pessoas sentem-se em casa, o ambiente é familiar, e temos uma esplanada muito agradável. As pessoas comem, gostam e depois voltam.”


Entre as várias especialidades d'O Cantinho da Ameixoeira, destacamos o peixe andala (São Tomé), o calulu (São Tomé e Angola), a moamba (Angola), a cachupa (Cabo Verde), a picanha (Brasil), e ainda os portugueses cozido à portuguesa e carne à Alentejana. Para além do senhor Felizardo, também os preços são simpáticos: o menu custa 8,50 euros e inclui bebida, sobremesa e café. “Sempre na justiça. Para ninguém ficar a perder”.


CANTINHO DA AMEIXOEIRA

Largo do Terreiro, 5

Ameixoeira Velha

Tel.: 21 245 02 69

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